Por Dr. Renato Mascarenhas e Dra. Julia Duarte, Urologistas em Belo Horizonte/Brasil
Introdução
Quem já teve cólica renal dificilmente esquece a experiência. A dor costuma ser intensa, repentina e, muitas vezes, desesperadora. Não por acaso, ela é considerada uma das dores mais fortes que uma pessoa pode sentir.
Mas, apesar de muita gente conhecer alguém que já sofreu com isso, nem todos entendem como uma pedra consegue se formar dentro do trato urinário. Afinal, como um líquido como a urina pode dar origem a um cálculo renal? E, mais importante, o que pode ser feito para reduzir esse risco?
O que causa a cólica renal?
A cólica renal geralmente acontece quando há uma obstrução aguda da via urinária. Em termos simples, isso significa que a urina está sendo produzida normalmente pelo rim, mas encontra uma barreira no caminho para sair.
Na maioria das vezes, essa barreira é uma pedra, também chamada de cálculo renal. Quando o cálculo sai do rim e entra no ureter, que é o canal que leva a urina até a bexiga, ele pode dificultar ou bloquear a passagem da urina. Como o rim continua produzindo urina, a pressão aumenta acima desse ponto de obstrução, gerando dilatação e dor intensa.
Esse é um ponto muito importante: o que costuma causar a cólica não é simplesmente ter uma pedra no rim, mas sim a obstrução provocada por ela.
Pedra pequena no rim nem sempre dói
Muitas pessoas fazem um exame de imagem e descobrem uma pedrinha pequena no rim, de 3 ou 4 milímetros, por exemplo. A partir daí, passam a relacionar qualquer dor nas costas com essa pedra. Mas, na maioria das vezes, isso não é o que acontece.
Pedras pequenas, paradas dentro do rim e sem causar obstrução, geralmente não provocam sintomas. Muitas pessoas convivem com esses cálculos sem saber, e só descobrem por acaso durante uma investigação médica.
A dor aparece, em geral, quando essa pedra se desloca e começa a dificultar a drenagem da urina.
Como a urina pode formar uma pedra?
Essa dúvida é muito comum e faz bastante sentido. Afinal, a urina parece apenas um líquido, mas ela não é composta só por água.
Além da água, a urina contém várias substâncias dissolvidas, chamadas solutos. Entre elas estão cálcio, fosfato, amônia, oxalato e outros íons que fazem parte do funcionamento normal do organismo.
Em determinadas situações, esses solutos ficam concentrados demais. Quando isso acontece, eles podem começar a se depositar e formar cristais. Esses cristais, inicialmente microscópicos, servem como base para novos depósitos, e assim a pedra vai crescendo aos poucos.
Em outras palavras, uma pedra nos rins começa de forma muito pequena. Toda pedra grande um dia foi pequena.
Entendendo a formação dos cristais de forma simples
Uma boa forma de imaginar esse processo é pensar em uma experiência simples de química. Quando colocamos sal ou açúcar na água, ele se dissolve. Mas, se continuarmos adicionando mais e mais, chega um momento em que a solução fica saturada e o excesso começa a se depositar no fundo.
Algo parecido pode acontecer na urina. Quando a quantidade de substâncias dissolvidas fica alta demais em relação à quantidade de água, aumenta a chance de formação de cristais. Esses cristais podem se unir, crescer e formar os cálculos renais.
A hidratação tem papel central
A formação de pedras nos rins é um processo complexo e pode envolver vários fatores. Mesmo assim, um dos pontos mais importantes, e que está bastante ao alcance da pessoa, é a hidratação.
De forma geral, a desidratação crônica é uma das principais condições associadas à formação de cálculos renais. Quanto menos água houver na urina, mais concentradas ficam as substâncias dissolvidas nela. E quanto mais concentrada a urina, maior o risco de cristalização.
Por isso, uma das orientações mais frequentes para quem já teve pedra ou quer prevenir novos episódios é simples: beber mais água.
Quem tem pedra nos rins precisa beber quanta água?
Não existe um número único que sirva para todo mundo. Para a população geral saudável, costuma-se considerar em torno de 35 ml de água por quilo de peso corporal por dia como uma boa referência. Mas isso pode variar bastante.
Pessoas que vivem em lugares quentes, transpiram muito, fazem atividade física intensa ou trabalham em ambientes quentes costumam precisar de mais água. Já pessoas com doenças cardíacas, renais ou outras condições específicas podem precisar de orientação individualizada.
Para quem tem tendência a formar cálculos renais, o ideal geralmente é produzir entre 2 e 2,5 litros de urina por dia. Isso significa que, muitas vezes, será necessário ingerir ainda mais água ao longo do dia, já que parte do líquido também é perdido pelo suor e por outras vias.
Uma dica prática é observar a cor da urina. Em geral, uma urina mais clara, em tom amarelo-palha, costuma indicar boa hidratação.
Homens têm mais pedra nos rins?
Sim. Os homens ainda apresentam maior frequência de cálculos renais do que as mulheres. No entanto, essa diferença vem diminuindo com o tempo.
Antigamente, falava-se em uma proporção de três homens para cada mulher com cálculo renal. Hoje, essa diferença parece estar mais próxima de dois para um. Mudanças no estilo de vida, na alimentação e na rotina podem estar relacionadas a essa aproximação.
No mundo, estima-se que entre 10% e 15% das pessoas terão pelo menos um episódio de cálculo renal ao longo da vida. No Brasil, a estimativa é de que cerca de uma em cada dez pessoas tenha pedra nos rins em algum momento.
Outro dado importante é o risco de recorrência. Depois do primeiro episódio, a chance de formar um novo cálculo nos cinco anos seguintes pode chegar a 50%.
O sal em excesso favorece a formação de pedras
Outro ponto importante na prevenção é o consumo de sódio, que está presente no sal de cozinha e em muitos alimentos industrializados.
O excesso de sódio pode favorecer a formação de cálculos renais. E esse excesso nem sempre vem apenas da comida salgada. Embutidos, enlatados, conservas, alimentos processados e até alguns produtos doces industrializados podem conter muito sódio.
Por isso, reduzir o sal da alimentação e diminuir o consumo de ultraprocessados é uma medida importante não apenas para a prevenção de pedras nos rins, mas também para a saúde de forma geral.
Cálcio não deve ser cortado sem orientação
Muita gente pensa o seguinte: se muitas pedras contêm cálcio, então o certo seria cortar o cálcio da alimentação. Mas essa ideia não está correta.
O cálcio é importante para a saúde óssea e para várias funções do organismo. Além disso, ele ajuda a se ligar ao oxalato no intestino, reduzindo a absorção dessa substância, que é um dos principais componentes envolvidos na formação de cálculos.
Quando a pessoa restringe demais o cálcio da dieta, pode acabar absorvendo mais oxalato, o que aumenta o risco de novas pedras. Portanto, o ideal é manter uma ingestão normal e equilibrada de cálcio, sem exageros e sem restrições desnecessárias.
Excesso de proteína animal também merece atenção
Dietas hiperproteicas estão cada vez mais comuns. Embora cada caso deva ser avaliado individualmente, sabe-se que o excesso de proteína animal pode favorecer a formação de cálculos renais em pessoas predispostas.
Isso não significa que seja necessário cortar carnes, ovos ou outros alimentos proteicos da rotina. O ponto principal, mais uma vez, é evitar exageros.
Suplementos e vitaminas também exigem cuidado
Outro hábito cada vez mais frequente é o uso de múltiplos suplementos e vitaminas sem orientação profissional. Muitas pessoas acreditam que, por serem cápsulas ou comprimidos, esses produtos são sempre inofensivos. Mas não é bem assim.
O excesso de algumas vitaminas e substâncias pode ser eliminado pela urina e contribuir para aumentar a concentração urinária de certos compostos, favorecendo a cristalização. Em outras palavras, suplementar sem necessidade ou sem acompanhamento pode trazer problemas, inclusive aumentar o risco de cálculo renal.
O que fazer para prevenir pedra nos rins?
De forma prática, existem algumas medidas que fazem diferença no dia a dia:
Manter boa hidratação, ajustada à realidade de cada pessoa.
Reduzir o excesso de sal e de alimentos ultraprocessados.
Priorizar o consumo de frutas e vegetais.
Evitar exageros no consumo de proteína animal.
Não cortar cálcio da alimentação sem orientação médica.
Ter cuidado com vitaminas e suplementos usados por conta própria.
Essas medidas não eliminam totalmente o risco, mas ajudam bastante a reduzi-lo.
Conclusão
A cólica renal costuma acontecer quando uma pedra obstrui de forma aguda a passagem da urina, aumentando a pressão no trato urinário e provocando dor intensa. Já a formação da pedra começa muito antes, a partir da cristalização de substâncias presentes na urina, especialmente quando ela está muito concentrada.
Por isso, entender como os cálculos se formam ajuda a enxergar que a prevenção é possível. Beber água adequadamente, moderar o sal, evitar excessos e manter hábitos equilibrados são atitudes que podem fazer grande diferença na saúde urinária.
Este texto foi elaborado pelo Dr. Renato Mascarenhas e Dra. Julia Duarte, urologistas em Belo Horizonte, com o objetivo de esclarecer dúvidas sobre o funcionamento do sistema urinário de forma acessível e educativa. As informações aqui contidas não substituem uma consulta médica especializada.